Bogotá - John Frank Pinchao, 34 anos, foi seqüestrado pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), no primeiro dia de novembro de 1998 quando a guerrilha atacou a cidade de Mitú, Departamento de Vaupés (próximo à fronteira com o Brasil). Foram oito anos e meio seqüestrado até que no dia 28 de abril de 2007, decidiu fugir e após 18 dias sobrevivendo nas selvas da Colômbia, foi resgatado pelas forças policiais. Atualmente, vive sob forte proteção da Polícia Nacional e deve deixar o país em breve por questões de segurança. Pinchao foi seqüestrado junto com outros 60 policiais que continuam presos pela guerrilha. No ataque das Farc ao quartel da Polícia Nacional em Mitú, a instituição perdeu 16 homens. Ele esteve no mesmo acampamento em que as Farc mantiveram Ingrid Betancourt, seqüestrada em 2002 e com quem conseguiu recobrar a fé em Deus e em si mesmo, fundamentais para que a fuga fosse exitosa. O policial recebeu o InfoRel na sede da Polícia Nacional em Bogotá e concedeu ao jornalista Marcelo Rech, a entrevista que segue.

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Depois de oito anos e meio seqüestrado, o que mudou em seus conceitos, principalmente quanto à liberdade?
Que a liberdade está acima de qualquer coisa e nenhuma pessoa sob nenhum pretexto está autorizada a impedir isso.

Você acredita que é possível acabar definitivamente com as Farc? Por quê?
Sim, é possível. Todo mal tem seu fim. Acabaram-se as guerras mundiais, as guerras civis em vários países. Muitos militares deram as suas vidas para acabar com esse conflito, derrotar esses delinqüentes, e muitas coisas estão sendo feitas com esse objetivo, pôr fim à esses terroristas. Espero que esses grupos, com as ações das forças públicas, entrem num processo de negociação e que nossos filhos e as novas gerações de colombianos herdem um país em melhores condições.

A Colômbia vive uma guerra de mais de 40 anos. Você acredita que essa realidade poderia ser outra se houvesse maior consciência internacional em relação ao conflito?
Sim, mas as grandes potências precisam ajudar concretamente aos países em vias de desenvolvimento. Esses países não podem ter apenas o papel de aportar matérias-primas para o desenvolvimento do mundo. Esses países devem nos ajudar em conhecimentos tecnológicos para que possam atingir um nível de desenvolvimento mais rápido. É preciso fechar essa brecha entre riqueza e pobreza, pois a pobreza alimenta o surgimento de grupos como as Farc e faz com que as pessoas comuns ingressem nessas guerrilhas em busca de soluções para seus problemas de pobreza.

Você acredita que a sociedade colombiana, sobretudo os mais ricos têm essa consciência em relação à pobreza e seus vínculos com grupos à margem da lei?
Sim. Temos que ver o problema sob a ótica de quem nunca teve oportunidades e sempre sofreu com essa divisão. São pessoas que sempre careceram de oportunidades básicas para sobreviver e que hoje têm sérios problemas quanto à educação e a saúde, por exemplo.

As Farc reclamam um reconhecimento político. No período em que esteve seqüestrado, teve algum contato com o que se poderia chamar de projeto político para o país, elaborado pelas Farc?
Não, nunca em meu período de cativeiro tive contato com esses temas. Eu acredito que as Farc já perderam seu norte. Hoje em dia se converteram num grupo narcoterrorista que se dedicam aos negócios de armas e drogas. Em termos políticos é uma organização que se perdeu completamente e onde já não há qualquer indício de idealismo. Estão completamente equivocados e depois de quatro décadas nunca chegaram sequer próximos de seus objetivos iniciais. Na verdade, eles fracassaram. O povo colombiano os repele completamente como vimos nas marchas que se organizaram em todo o mundo no começo do ano. Hoje, eles se dedicam apenas a assaltar, extorquir, atacar pessoas indefesas, a colocar bombas, provocar deslocamentos forçados, gerar desempregos.

Que opinião tem sobre o programa de reintegração dos desmobilizados implementado pelo governo?
O governo está fazendo todos os esforços por reintegrar essas pessoas. Há dificuldades, mas a gente muito comprometida com esses programas. Este é um chamado que se faz aos guerrilheiros, que tomaram um caminho equivocado, que é um caminho de escravidão, onde trabalham como animais, levantam muito cedo e se dedicam à jornadas de trabalho que por fim não geram nenhum benefício

Você entende que o drama colombiano continua distante para países vizinhos como o Brasil, por exemplo?
Cada país tem seus próprios problemas e cada um deve se ocupar de seus assuntos domésticos. Creio os problemas internos do Brasil são mais importantes para suas autoridades e isso faz com o nosso conflito permaneça de certa forma distante. Isso faz com que nos falta a colaboração e a cooperação de governos estrangeiros nos processos de paz e negociação com os grupos guerrilheiros.

O Brasil concedeu a um dos porta-vozes das Farc, status de refugiado político. Você que conheceu as Farc por dentro, como reage diante dessa decisão?
Neste tema não tenho ingerência por conta do meu posto como polícia. Como vítima, vejo que essa pode ser uma alternativa para que se gere um processo de negociação que culmine com a paz. Se for assim, então é uma decisão bem recebida.

Neste momento, está em marcha na América do Sul, um processo de integração regional. Você acredita que este projeto pode ser completo sem que o conflito colombiano seja verdadeiramente posto à mesa?
Independentemente disso, o mundo está em processo de globalização generalizada. Já temos experiências em outras regiões como Europa. Eu acredito que com o tempo, teremos uma integração regional completa.

Você acaba de completar um ano em liberdade. Como tem sido a vida depois de uma experiência traumática como esta?
Tem sido muito gratificante. Tenho recebido muito apoio de minha família e da minha instituição, a Polícia Nacional, além da população colombiana que tem sido muito solidária. O povo colombiano está despertando, não pode viver para sempre diante do temor, tem que se levantar numa onda de protestos para exigir o seu direto à paz. E a guerrilha precisa ter consciência que o caminho escolhido por eles não vai dar em lugar algum e que os supostos ideais que tinham já existem. Que se converteram num grupo terrorista, delinqüente e devem tomar outro caminho, de compromisso com o país.

Você acredita numa reconciliação duradoura entre essa organização, o governo e a sociedade colombiana?
Claro. Mais cedo ou mais tarde terá que dar-se esse processo de paz. Os guerrilheiros devem saber que esse terrorismo que geram não contribui em nada com o país.

Tenho a percepção que o fato de Ingrid Betancourt estar entre os seqüestrados tenha ampliado os esforços internacionais em favor da libertação dos seqüestrados. Caso ela venha a ser libertada, isso não reduz as chances daqueles que têm menos apelo midiático?
De fato há um grupo de militares que em alguns casos já completaram dez anos de seqüestro. Nós policiais e militares sabemos que só se interessam por nós, as nossas famílias. No caso dos políticos, se leva em conta que têm uma representaividade, por isso a população em geral se sente mais próxima deles. Mas, começa a se gerar uma consciência de que são colombianos que deram suas vidas num esforço por manter a paz no país.

No Brasil, as Farc seguem obtendo apoios, sobretudo junto à partidos de esquerda e aos jovens. Até que ponto isso prejudica os esforços feitos pelo governo da Colômbia para derrotar a guerrilha?
É preciso desfazer essa imagem que não condiz com a verdade. A realidade dessa guerrilha é que perderam sua razão de ser e que se dedicam a coisas que são o contrário do que pregam. É uma guerrilha que não tem o respaldo do povo colombiano. Eles são incoerentes entre suas palavras e ações. Quando se diz que vai lutar pelo povo, deve-se fazê-lo com idéias claras para que o povo os siga. Quando se diz uma coisa e se faz outra, isso gera um ambiente de inconformismo dentro da sociedade e que gera um rechaço contundente por parte do povo colombiano a essa guerrilha.

Que opinião você tem quanto a posição do presidente Lula que se nega a interferir num problema que para ela, é apenas da Colômbia?
Todo e qualquer esforço que se faça para que haja liberdade daqueles que estão seqüestrados, é importante. Caso o presidente entenda que pode ajudar neste sentido, sua ajuda será bem-vinda.

Onde você encontra forças para continuar lutando contra as Farc depois de ter sido seqüestrado por mais de oito anos?
O seqüestro gera novas famílias. Aqueles que lá estão já vivem como irmãos. São pessoas que sentem alegria pela liberdade, mas que se sentem tristes com o seqüestro. Um que consegue lograr a liberdade não pode ficar tranqüilo até que seus companheiros consigam o mesmo. Eu acredito que o povo já despertou e se deu conta do que é esse conflito.

Muitos militares colombianos me disseram que vários dos cerca de 750 sequestrados das Farc podem estar mortos. O que pensa a respeito?
Muitos políticos e militares foram mortos, mas àqueles que seguem seqüestrados, que consigam suportando, que tenham forças para seguir vivendo. Tenho muitas esperanças que vão conseguir voltar à vida e à liberdade.

O que é necessário para que as Farc sejam totalmente derrotadas?
Há um trabalho intenso por parte das forças publicas e eu acredito que não resta muito tempo para as Farc. Espero, é minha grande aspiração, que se chegue a um processo de paz onde eles respeitem a Constituição do país, se reintegrem na construção da paz e que entreguem as armas. O caminho correto é a democracia e através de um processo de paz.

Que avaliação faz com relação a operação que culminou com a morte de Raul Reyes?
Não acredito que a morte de Reyes prejudique o processo de paz ou o intercâmbio humanitário. Aqueles que se envolvem num conflito sabem as conseqüências disso. Isso não é um jogo. Seguramente, um conflito gera mortos e foi o que aconteceu. Neste período em que estive seqüestrado só tive contato com Mono Jojoy em duas ocasiões e nunca vi Raul Rayes. Não acredito que a sua morte prejudique qualquer esforço, pois uma organização como as Farc logo indica alguém para o seu lugar e as coisas continuam.

Até quando acredita que é possível esperar por um acordo humanitário com as Farc antes de uma operação militar de resgate de todos os seqüestrados?
Essa é uma questão onde não se pode colocar limites de tempo. É urgente que se consiga a liberação dos seqüestrados através de um processo que envolva todos os atores.

Nestes oito anos e meio de seqüestro, o que foi que o manteve vivo?
Minha família. Através do rádio, sempre me mandavam mensagens que me ajudaram a acreditar na minha liberdade.

Você entende que é um arquivo vivo? Está disposto a reviver seu drama para difundir em todo o mundo o que é o conflito colombiano?
Essa é uma oportunidade para dar conhecimento ao mundo do que é no que se transformaram as Farc. É preciso que as pessoas saibam quais são as realidades do conflito, do seqüestro. Depois da minha fuga, muitos ainda duvidam do que disse, de que nos mantinham presos por cadeados. É a oportunidade para dizer qual é a realidade. Isso é o que estão padecendo meus companheiros que ficaram a dor e a angústia. No dia-a-dia, nos acordavam às 5h da manhã, ouvíamos as mensagens de nossos familiares através do rádio, nos soltavam dos cadeados (agora sei que depois da minha fuga, os que ficaram permanecem cadeados às 24h do dia), nos davam o café, nos deixavam fazer exercícios, ler, almoçar, tomar banho, conversar um pouco, jogar, comer, escutar rádio e às 19h nos colocavam outra vez os cadeados e íamos dormir. Eu vi muitas crianças guerrilheiras que o fuzil ficava preso no chão, pois eram maiores que as crianças. Vi meninos e meninas que se converteram em homens e mulheres e que são submetidos à trabalhos duros, inclusive preparando a terra para o cultivo de coca e colocados para combate. Se colocamos numa balança, não sei o que é pior, se o recrutamento de meninos e meninas ou os seqüestros. As Farc se converteram num grupo que tem causado muitos danos e gerado muita dor ao país. O povo pelo qual dizem que lutam, são os que mais sofrem com o que fazem.


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Fonte: www.inforel.org
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