De Marie Delcas  - Le Monde - Correspondente em Bogotá, Colômbia

A mediação de Hugo Chávez não permitiu obter a libertação de Ingrid Betancourt, mas ela conduziu o presidente venezuelano a prometer armas e dinheiro para a guerrilha colombiana. Esta informação foi revelada pelos e-mails encontrados nos arquivos dos computadores de Raúl Reyes, um dos chefes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, organização de extrema-esquerda), que foi morto em 1º de março. Na quinta-feira, 15 de maio, três peritos da Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal) confirmaram a autenticidade dos 38.000 documentos que foram encontrados nesses computadores, garantindo não terem encontrado "nenhuma alteração dos dados".

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A reportagem do "Le Monde" teve acesso a uma centena de e-mails que dizem respeito à Venezuela. "O presidente Chávez aceitou sem hesitação o pedido de 300", escreve Ivan Márquez, um outro chefe das Farc, após ter sido recebido por Chávez em Caracas, em 8 de novembro de 2007. Outros e-mails permitem deduzir que se trata de US$ 300 milhões. "Seria preciso definir ao certo se este valor corresponde a um empréstimo ou a uma doação a título de solidariedade", busca esclarecer o dirigente histórico das Farc, Manuel Marulanda.

"Chávez disse que se Uribe (o presidente colombiano) causar problemas a qualquer um dos delegados das Farc, ele estará criando um inimigo para o restante da sua vida", escreve Ivan Márquez. Por ocasião da sua visita ao palácio presidencial em Caracas, ele conversa com o ministro do interior venezuelano, Ramon Rodriguez Chacin, a respeito de "um mecanismo que permita receber na região do Orenoque a remessa dos australianos" (vendedores de armas com os quais ele se reunira em setembro de 2007). O ministro pede às Farc para formarem militares venezuelanos "nas técnicas da guerrilha" com o objetivo de travar uma guerra "assimétrica" contra os Estados Unidos.

Em fevereiro de 2008, um encontro secreto é realizado entre Ivan Márquez e o presidente venezuelano. Hugo Chávez afirma que ele dispõe dos "primeiros 50, e de um calendário para complementar os 200 restantes no decorrer do ano". Ele oferece às Farc uma "quota de petróleo", além de "velhos estilingues que ainda funcionam" (os quais seriam fuzis, segundo Bogotá) procedentes da Nicarágua.

Márquez escreve: "O amigo de 348-6546-6447-6849-6471-6542 lhe sugeriu trabalhar o pacote passando pelo mercado negro, de maneira a evitar problemas". Este número seria o codinome para o Belarus, que é um dos fornecedores de armas de Caracas. Revelados pelo diário espanhol "El Pais", a divulgação destes documentos provocou a cólera de Hugo Chávez, que acusa a Colômbia e os Estados Unidos de estarem tramando um complô contra ele.

O relatório técnico da Interpol não conseguirá esclarecer todas as dúvidas. "Ao filtrar os documentos em ritmo de conta-gotas, Bogotá se expõe a acirrar as suspeitas de manipulação política", comenta um diplomata latino-americano. "Nós sabemos que emissários franceses se reuniram em várias oportunidades com as Farc para obterem a libertação de Ingrid Betancourt. Ora, de maneira estranha, nada ainda apareceu no que se refere ao conteúdo dessas negociações".

Os documentos cujo conteúdo foi revelado constituem uma mina de informações sobre as Farc e as suas relações, conturbadas por incidentes, com o governo venezuelano. Em 2000, Hugo Chávez recebe oficialmente uma delegação das Farc, as quais aceitaram se envolver em negociações de paz. Já naquele momento, a guerrilha manda dizer que ela quer dinheiro e armas. Depois da ruptura do processo de paz, Chávez, entretanto, decide manter-se afastado das Farc, aparentemente seguindo o conselho dos cubanos. Nenhuma outra reunião "de cúpula" será realizada antes daquela de novembro de 2007.

Contudo, vários homens se encarregam de manter o contato. Com "Tino", um deputado venezuelano, as Farc conversam sobre política e estratégia. A guerrilha busca se infiltrar no exército de reserva que foi implantado por Hugo Chávez. Com o coronel Hugo Carvajal, o chefe dos serviços de inteligência militar venezuelanos, e com um certo "general Alcala", as Farc coordenam a coabitação na fronteira e, em certas oportunidades, as compras de armas. Em fevereiro de 2007, Ivan Márquez confirma o recebimento de "20 mísseis antitanque de 85 mm, 2 tubos e 20 cargas". O general Alcala se compromete a introduzir "um comerciante de armas do Panamá". Este vai assumir funções no porto de Maracaibo, "o que representa uma grande vantagem para descarregar as mercadorias".

Para as Farc, a mediação da Venezuela no processo de libertação dos reféns desponta como um pretexto próprio para permitir-lhes consolidar o seu "plano estratégico", que deverá conduzi-las um dia ao poder e que passa no curto prazo pelo reconhecimento do seu estatuto de beligerante.

Tradução: Jean-Yves de Neufville
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