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Categoria: Diversos
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 Coisas que nos satisfazem muito, o julgamento de um guerreiro.
A Medalha é o único reconhecimento aceito pelo militar por seus serviços prestados a Pátria. A Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, agracia com a Medalha de Tiradentes o Herói da Independência, a um outro Herói, combatente da Guerrilha do Araguaia Coronel R1. Lício Augusto Ribeiro Maciel , formado em engenharia eletrônica pelo IME , pára-quedista e combatente de selva por aptidão , caçador por esporte e excelente atirador, destacou-se no comando de um grupo de operações especiais de busca e combate de selva, sua medalha de Tiradentes reflete o reconhecimento de quantos tiveram a honra de ser por ele comandado.
 
Texto completo
 
 Sua atuação no combate a Guerrilha do Araguaia influiu definitivamente pra abreviação da vitória , tendo em vista que sua equipe destruiu de uma só vez, em confronto com "experientes" guerrilheiros cursados em Cuba, China e Rússia, que se denominavam Grupo Militar, tendo escapado apenas um guerrilheiro que fugiu e por estar desarmando e não foi perseguido.
 
Lício, - sua equipe permanente o tratava pelo primeiro nome e ele fazia o mesmo , posto ou graduação, não era sequer cogitado ou mesmo lembrado, em público os nomes davam lugar aos codinomes, uma forma de salvaguardar as famílias e dar consistência as "estorias de cobertura", cada um não sobreviveria se não contasse com a confiança do outro, e essa necessidade aliada a amizade surgida de muitos anos juntos formava o espírito da equipe, em realidade, quando em missão na selva, passavam-se muitas e muitas horas sem dizer palavra, mas cada um sabia o que outro estava pensando e que ação tomaria e qual lhe caberia no contexto. Foi assim nos minutos que antecederam ao combate com o Grupo Militar, a aproximação foi cautelosa, ouvíamos suas vozes, estavam bem a vontade, haviam assaltado na véspera um Posto da PM na Transamazônica, estavam bem armados com fuzis e munição tomados dos policiais.
 
Uma pequena elevação nos separava do grupo guerrilheiro, com mais destaque em ações de combate ( por teoria), rastejávamos, devagar, cada gesto pensado e repensado, um braço colocado sobre um graveto seco, ao quebrar-se poderia causar um barulho maior que o esperado , e podia significar vida ou morte, e a surpresa é a principal arma no combate. Nesses momentos cruciais, lhe passam como relâmpagos os ensinamentos aprendidos na caserna, e que você achava um "saco" e que agora poderá salva-lo, "aloprado" não chegaria a lugar algum, a técnica toma lugar das intuições, penso e sei que o restante da equipe esta fazendo o mesmo, o silêncio só é quebrado pela batida forte do coração, que só você escuta, afinal o medo é o resultado da analise do que pode acontecer, é uma questão de conhecimento do momento e reminiscências de outros combates, só os loucos não sentem medo.
 
Estamos ainda deitados, o inimigo deve estar a não mais que cem metros depois da elevação. Quantos são ? Ouvimos três a quatro vozes diferente, mas poderiam ser mais. Onde vou? Como vou? Porque vou? A primeira resposta que tinha, era para a última pergunta , Vou porque o inimigo a qualquer momento vai se deslocar e pode ser na minha direção, porque não? Lício era o primeiro na progressão, seguido por mim e João Pedro, em seguida vinham três soldados e o mateiro, nosso guia. Nosso poder de fogo eram três fals com os soldados uma 22 com o guia e três metralhadoras Beretas 9mm , - muito boa para andar na mata, não engancha nos cipós e leve, mesmo com dois pentes duplos , a minha apelidei de " mal de setung ", escrito no esparadrapo que unia os dois pentes, naquela hora preferiria uma R15 , mas isso e coisa de marines.
 
Quando estava montando mentalmente a resposta as perguntas iniciais, de súbito, sem dar qualquer ordem (como sempre) e sem aviso Lício levanta de uma só vez e corre em direção de onde vinham as vozes, a equipe toda se levanta e avança célere, deixando para traz pensamentos e receios, ninguém diz uma só palavra, mas toda equipe sabe que Lício não pode chegar sozinho para aquele encontro. Chegamos juntos, o tiroteio foi intenso, as balas passavam com zumbidos em nossos ouvidos. De repente , só o eco propagando-se na floresta se fez presente. Tempo passado, não pôde ser medido, segundos, minutos ou uma eternidade.

A visão começa a voltar e com ela a realidade. Durante o combate você não vê o rosto do inimigo (inimigo que nos escolheu de livre vontade), você atira em tudo que se move alem da linha de combate. Nessa fração de momento o inimigo é apenas um numero, nesse momento seu único motivo para atirar nele e em defesa própria. você não esta atirando num ser humano, você esta derrubando uma peça no jogo da guerra, sendo que a guerrilha é a mais suja e covarde das guerras, porque não é feita por valentes e sim por ações covardes de ataque e fuga, e de justiçamentos desumanos com fins a levar a intimidação aos moradores locais. A realidade sacode nossos pensamentos, e se reflete em corpos ensangüentados de homens e porcos. Cientes de seu poderio de fogo , após o ataque ao posto da PM o grupo militar resolveu caçar porcos, e foi um tiro de espingarda identificada como calibre 12 que ouvido a mais de 800 metros na selva nos levou ao encontro macabro. Hoje me alegro de não ter perseguido o único sobrevivente, mesmo porque estava desarmado e não me poderia causar nenhum perigo, e assim sem qualquer combinação, deixamos que fugisse.

Lício sinto que lá céu João Pedro está feliz com sua condecoração, assim como eu

Seu amigo CID

 
Em 29/04/2008, às 16:36:12, Licio Maciel disse:
Cid, outra equipe como a nossa, sem falsa modéstia, será difícil formar. Sempre admirei todos os demais componentes, pela forma física demonstrada e coragem sempre viva. Nunca escutei uma só reclamação, sede e fome, marcha contínua, roupa sempre molhada sobre o corpo, formigas, carrapatos, pulgas, mosquitos, tudo de tamanho compatível com a nossa Amazônia. Sinto não poder contar com essa equipe no próximo embate, lá em Roraima, contra os cucarachos de Chávez. Mas, garanto, o nosso Exército saberá derrotá-los igualmente.
 
É a realidade da vida: o nosso tempo se encerrou; cumprimos galhardamente com o nosso dever.

Esse combate que você descreve, foi o início da derrota deles lá no Araguaia.

Sua descrição me fez lembrar aqueles segundos que antecederam o primeiro tiro: às 6 da manhã, antes do "café" (feito com folhas do mato, sem açúcar, sem nada), nem chegamos a tomar: eles deram três tiros caçando porcos e fomos em cima. O combate teve início pouco mais de três horas da tarde. Não comemos nem bebemos nada nesse ínterim.
 
Como agüentamos?
 
Forte abraço, do amigo Lício.