Enquanto escrevo essa crônica de vez em quando ligo a TV para ver as notícias e vejo o poderoso George W. Bush abraçado com o Lula. Ao mesmo tempo vejo meia dúzia de gatos pingados protestando contra o gringo sem se darem conta que o Lula esta no poder graças à abertura política, forçada, pelo Governo Americano aos governos militares da América Latina nos 80 devido ao fim da Guerra Fria.
Em Montevidéu sem ser apresentado por Marcos, conheci, pessoalmente, o ex-presidente Jango Goulart, sempre reservado e arredio.
Com o Leonel Brizola joguei muitas vezes buraco após o encerramento do expediente no restaurante Jangadeiro, na Playa de Pocitos, onde o Exilado fazia de vez em quando inflamado discursos prometendo a todos perdão pelos seus crimes, inclusive a mim, quando ele fosse o Presidente do Brasil. Foi ele quem me apelidou de Mato Grosso.
Esses tubarões, acima mencionados, do exílio político brasileiro, no Uruguai, eram figurinhas quase que diárias no Restaurante Jangadeiro, de propriedade do ex-ministro do trabalho e previdência, Amauri de Oliveira Silva.
também conheci outras figuras, inclusive o cabo José Anselmo dos Santos que fora expulso da Marinha e se envolveu com atividades subversivas no sindicato dos marinheiros do Rio de Janeiro.

Não foi por coincidência que ele era o cozinheiro no restaurante do ex-ministro, pois antes disso, no Rio de Janeiro, o dono do restaurante e ex-ministro era quem negociava com o sindicato dos marinheiros. Foi esse ministro que aumentou dramaticamente o numero de sindicatos pelo Brasil.

Hoje me pergunto se foi o Cabo Anselmo, em 1970, depois de saber o meu nome completo, fora quem me denunciou ao DOPS pensando que eu era mais um comunista brasileiro no Uruguai.

Nos meus relatórios para o DOPS não falei muito sobre ele, pois a mídia brasileira já tinha explorado bastante o seu nome e o seu envolvimento com os sindicatos no Rio de Janeiro. Eu, Intimamente, suspeitava que o Cabo Anselmo por ter sido da Marinha, fosse um agente do CENIMAR - Centro de Inteligência da Marinha Brasileira - que por sinal, na época,  diziam ter o melhor serviço de inteligência do País.
 
Quando sai de São Paulo para trabalhar no Uruguai não me foi passado nome de nenhum informante ou agente do Governo Brasileiro que lá atuava. Eu mesmo fui para o Sul como voluntário idealista, pois nunca me deram um contrato de trabalho para assinar nem me foi oferecido uma vaga na polícia civil de São Paulo ou em outro lugar qualquer.

Em Montevidéu, também, estive morando em outro cortiço a la Uruguai  onde havia um bando de brasileiros, inclusive o Wilson Egidio Fava e uma outra mulher (Renata? A namorada de Wilson?).
 
O Wilson Fava foi o terrorista quem dirigiu uma camionete com explosivos contra o quartel do II Exército em São Paulo, (1968) resultando na morte do soldado Mario Kosel Filho.

Esteve também presente a um assalto de uma delegacia da Aclimação de onde levaram armamentos, fez parte no roubo dos dólares do cofre do ex-governador de São Paulo, Ademar de Barros. Mais tarde se desentendeu com seus companheiros por causa da saída do Capitão Carlos Lamarca do exército e foi expulso da VPR vindo a se esconder no Uruguai. Assim ele me relatou.
 
Foi o Wilson Fava que, entre outros, escolheu o meu nome para um plano que circulou em Montevidéu de colocar uma bomba no carro do Delegado Sergio Paranhos Fleury que, supostamente, viria a aquele País para formar o esquadrão da morte uruguaio.
 
Na virada do milênio conheci o filho do Delegado Fleury (Paulinho – Delegado de Policia em S.P.) e contei a ele essa passagem interessante envolvendo o nome de seu pai no Uruguai.

Foi para o Wilson Fava que também tirei cópia de uma chave de uma casa onde estava escondido armamento roubado do exército uruguaio e destinado aos Tupamaros, mas que era de interesse de grupos brasileiros rouba-las e transporta-las para o Brasil aonde seriam usadas por grupos guerrilheiros nacionais.

Mais tarde, anonimamente, tive que avisar os Tupamaros que alguns bandidos estavam planejando roubar suas armas.

Enquanto vivi no Uruguai, o Primeiro Comunista, Marco e outros brasileiros comunistas, guerrilheiros e terroristas me classificavam como um “soldado”, ou seja:

Como eu não tinha uma intelectualidade política de esquerda, naquele momento, então só seria útil para suas organizações, tais como a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR); Ação Libertadora Nacional (ALN); Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR); entre muitas outras que lá tinham seus representantes, como uma “bucha de canhão”.

Hoje, na minha maneira, ainda não intelectualizada e simples de ver política de uma forma globalizada, qualifico os “buchas de canhão” como terroristas suicidas.

Bem que eles tentaram me instruir politicamente, introduzindo-me o famoso Livrinho Vermelho do Mao e outros do Lênin e Marx acompanhados de todas aquelas literaturas que apregoavam o fim do Imperialismo, Capitalismo, etc.

Nos seminários que freqüentei sob suas orientações tentaram me lavar cerebralmente de como era prazeroso e esperançoso idolatrar o Che Guevara, Fidel Castro, Ho Chi Min e outros Deuses da Esquerda, com o intuito de implantar no Brasil e em toda a América Latina ditaduras comunistas iguais a de Cuba ou pelo menos satélites comunistas.

Na época, com 23 anos de idade, poderia deixar-me influenciar como fez o Capitão Carlos Lamarca que desonrou o Exército brasileiro e seus colegas de farda.

Os Comunas subestimaram o meu juízo de escolher entre o bem e o mal, entre a direita e a esquerda. Não sabiam eles que quando às vezes me perdia no trânsito da grande São Paulo ou de outro lugar qualquer, nunca entrava à Esquerda, sempre escolhia a Direita, mesmo que fosse para morrer, logo ali, numa favela desconhecida.

Hoje acho que essa minha ideologia é genética. É pena que nossos políticos e empresários brasileiros que geneticamente são de direita, entram na fila de transplantes do poder em Brasília e logo saem do outro lado, todos felizes, com aquele sorriso nos lábios cheirando e lambuzados com o sabor de esquerda.
 
E falando em ideologia vou falar do Frei Beto que nunca o conheci, pessoalmente, mas graças ao meu trabalho e ao do SS do DOPS que o estudante Paulo de Tarso Venceslau  foi preso  e mais tarde denunciou o seu  amigo, Frei Beto aos investigadores da OBAN – Operação Bandeirantes – onde a Marinha, Aeronáutica, Exército e DOPS tinham uma central de inteligência especializada em combate aos grupos terroristas.

Paulo de Tarso foi preso por agentes da OBAN com seu fusquinha branco, emplacado em Santos usando uma calça de veludo cor de mel. Eu o conhecera rapidamente no Uruguai quando ele lá esteve para levar o publicitário Henrique Knap e sua esposa que fugiram do Brasil rumo a Alemanha na época.

O meu trabalho no Uruguai era relatar ao DOPS tudo e todos que fossem ligados a movimentos políticos no Brasil e no Uruguai.

Relatei então a placa do fusca ao Dr. Francisco Guimarães do Nascimento do DOPS Paulista em um dos meus boletins.

Na OBAN ele, Paulo de Tarso, entregou o Frei Beto,  este por sua vez contou aos investigadores onde era o local de encontro com o chefão Marighela. Pressionado pelos investigadores Frei Beto marcou o encontro dele com o Carlos Marighela em uma livraria nos Jardins.
 
Com essas informações preciosas nas mãos, o DOPS se encarregou de armar uma armadilha para aprisionar o Ex Deputado comunista fundador da ALN, uma das organizações terrorista sanguinária que competia com muitas outras para a tomada do poder via luta armada no Brasil. Como era de se esperar Carlos Marighela reagiu e foi morto,  encerrando-se no bairro da elite paulistana, Jardins, sua carreira de terror.

Quando voltei do Uruguai o DOPS me ofereceu um trabalho no Chile onde poderia ter um salário três vezes melhor fazendo o mesmo serviço de inteligência que fizera no Uruguai.  Declinei a oferta e aos poucos fui me desligando daquela instituição que passou, mais tarde, a ser comandada pelo Delegado Romeu Tuma.

Antes de imigrar para os Estados Unidos, voltei a morar no Mato Grosso por um curto período de tempo onde revi amigos e familiares. Um desses amigos com quem conversei bastante sobre o que fiz no Uruguai foi o sargento do exército aposentado, Ângelo Perin, que me relatou o seguinte fato.

No outro dia da morte de Carlos Marighela a imprensa nacional e estrangeira publicou fotos do terrorista morto em todos os jornais e revistas. As TVs também deram destaque ao fato e estamparam por horas a imagem de um dos mais procurados terroristas do Brasil.

Em Ponta Porã, apesar de ser do outro lado do mundo e quase que fora do território nacional, também, chegaram fotos do Comunista, já morto.
 
Como o Carlos Marighela estava na glandestinidade desde 1954, nenhum órgão de segurança nacional tinha sua foto atual. Então as fotos que circulavam em cartazes de PROCURA-SE pelo Brasil afora estavam completamente defasadas, caducadas, velhas, fora da moda. Esse detalhe, importantíssimo,  deu a Carlos Marighela certa liberdade de andar pelo país completamente tranqüilo sem esconder muito o rosto, principalmente quando ia a Mato Grosso visitar seus companheiros de luta.

Foi, depois da entrada do rosto, morto, de Carlos Marighela nos lares daquela distante e isolada região que alguns moradores da Colônia Penzo se deram conta que o terrorista morto em São Paulo era o mesmo “Curandeiro” que de vez em quando aparecia à cavalo para visitar o Marco (Paraguaio) em seu pequeno buteco quando ele ali morava.

“Curandeiro” porque se disfarçava de um pobre campesino entendido em ervas medicinal, inclusive receitando para poucos curiosos algum remédio de ervas ou raízes.

Um dos que recebera a receita (não ficou claro se pagou ou não) foi o Capitão Aroldo (Carioca ruivo) do 11º Regimento de Cavalaria de Ponta Porã.  Parece que o comando militar da região abafou o caso, mas depois fiquei sabendo que o exército encontrou uma fazenda (aparelho), ali perto da Colônia Penzo, na fronteira entre Bela Vista e o Paraguai, onde havia uma base de treinamento para guerrilheiros que de acordo com fontes do Serviço Secreto do Exército era um local onde Carlos Marighela freqüentava.

De fato, o PRIMEIRO COMUNISTA que conheci foi o Marco Zorilla Pereira, o Paraguaio.

A última vez que ouvi seu nome foi na sede do DOPS quando voltei do Uruguai e lá estava o Cônsul Paraguaio indagando pelo paradeiro de seu compatriota procurado no Paraguai. O Dr. Francisco que já tinha lido meus relatórios lhe respondeu que o Paraguaio Marco, no momento,  estava morando na Argentina.

Março de 2007

Fernandez
Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
www.arttops.com

Adicionar comentário