Por Fernandez - Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. - www.arttops.com - Recebido por e-mail
O Primeiro Comunista que conheci, pessoalmente, chamava-se MARCO ZORILLA PEREIRA. Não sei se está vivo ou morto e se esse é o seu verdadeiro nome.
No começo dos anos sessenta conheci o Marco na Colônia Penzo, atual Município de Antonio João, no Mato Grosso do Sul onde ele era dono de uma pequena mercearia e bar (buteco).
Na época a Colônia não passava de um pequeno povoado que situado entre Ponta Porã, Bela Vista e o Paraguai tinha como principal atividade econômica a pecuária, além de também ser rota de contrabando de café e uísque.
Lá viviam e vivem até hoje vários parentes de meus pais, alguns deles fazendeiros ricos, outros pobres. Na pequena Colônia ninguém sabia dos ideais ou das intenções de Marco e, muito menos, o que aquele senhor culto e simpático estava fazendo por ali.

Bem educado e com boa aparência o vizinho estrangeiro, oriundo do Paraguai, falava o português fluentemente. Sua esposa, Dona Regina, cuidava dos filhos e da mercearia, principalmente, quando o marido fazia suas longas viagens rumo ao desconhecido. O casal de paraguaios e alguns de meus familiares se visitava aqui e ali.

Mais tarde (1966) reencontrei o Marco em São Paulo quando para lá Ele mudou-se com sua família. Eu já residia na Capital desde 1964.

Na mesma época, meu pai, militar, aposentou-se do exercito como 1º tenente R1 e se mudou com minha mãe e irmãs, tambem,  para São Paulo para melhor educar as mais novas. Eu e meus dois irmãos mais velhos, por falta de dinheiro, já estávamos descartados do orcamento minguado do militar.

Foi nesse curto período de tempo enquanto tentava se adaptar à grande Metrópole que meu pai me alertou sobre quem era realmente o Marco, confidenciando me que um ex superior seu do 11º RC de Cavalaria,  Coronel Alfredo Marquezi que após, também, aposentar-se do exército trabalhava em São Paulo no combate ao terrorismo e guerrilha, lhe comunicou que o Paraguaio era, de fato, um comunista e estava sendo investigado por subversão, ligação com grupos guerrilheiros, de ter estocado armas e explosivos em rua residência em São Paulo e  possível assalto a banco no Paraná.

Enquanto esses fatos ocorriam, Eu fora contratado pelo Diário do Grande ABC para trabalhar na Secção de Circulação onde usaria a minha experiência de dois anos e meio obtida no Jornal o Estado de São Paulo, de onde recentemente tinha pedido as contas.

Fiquei no Jornal do ABC por pouco tempo, pois em seguida embarcaria em uma nova aventura fora do Brasil.

Nos poucos dias que trabalhei em Santo André continuei mantendo contato com alguns conhecidos da Capital e escolhendo para companhia aqueles que se preocupavam e participavam de reuniões e movimentos políticos de direita.

Apesar de não me dar bem com o meu pai e de não ter seguido a carreira militar, herdei dele seus ideais políticos.

Foi numa dessas reuniões que conheci o jovem Delegado do DOPS e posteriormente da OBAN, mais tarde assassinado por terroristas no Rio de Janeiro, Dr. Otavio Gonçalves Moreira Júnior (Otavinho).

Tínhamos algumas idéias em comum e ficamos amigos. Mais tarde ele me apresentou a um militar encarregado da Inteligência do II Exercito onde compareci e compreendi a preocupação do governo com o surgimento de novas organizações de esquerda, grupos guerrilheiros e terroristas que se formavam Brasil afora com o intuito de tomar o poder pela luta armada e aqui instalarem uma Ditadura Comunista, ou pelo menos um Satélite comunista da, hoje, falida Rússia, China ou até mesmo de Cuba.

Marco nesse período de tempo refugiou-se em Montevidéu, no Uruguai.

Depois de algumas reuniões com o militar e de demonstrar interesse na possibilidade de Eu mudar-me para o Uruguai e infiltrar-me no meio dos brasileiros exilados ou foragidos que lá viviam, fui encaminhado ao DOPS onde fui apresentado ao chefe do Serviço Secreto (SS), Dr. Francisco Guimarães do Nascimento (Chico Charuto), sua equipe de delegados e investigadores.

O Dr. Francisco Nascimento, com estágios na Scotland Yard e no FBI me impressionou com seu patriotismo, profissionalismo e eficiência. Após umas quantas reuniões aprendendo nomes, sobrenomes, alcunhas, fotos de terroristas e de suas organizações foi traçado um plano de ação para infiltra-me no meio dos exilados políticos no Uruguai e de grupos guerrilheiros que lá tinham seus contatos.
 
Foi sugerido por alguns amigos e o pessoal do SS que antes de viajar rumo ao Sul deveria sujar o meu nome.

Em outras palavras:

Eu não tinha ficha criminosa e muito menos era conhecido no meio político da esquerda brasileira. Como não pertencia a nenhuma organização política/terrorista e como filho de militar não seria fácil de entrosar-me com os exilados, e assim sendo, seria difícil angariar as informações que aqui no Brasil o Governo precisava para combater os movimentos de guerrilhas armados.

Para tanto se decidiu que uma ficha suja na policia seria o ideal já que não havia tempo hábil para infiltrar-me em movimentos estudantis de esquerda de São Paulo ou em outro lugar qualquer.

Depois de delineado os planos, o DOPS me entregou um táxi que a policia encontrou abandonado e que havia sido roubado por marginais da Capital. O plano era para que eu fosse, mais tarde, preso em uma batida policial e, então, sujar o nome (dedos) devido ao roubo do carro e ser processado pelo crime, embora não tivesse sido o autor.

Enquanto esperava por ordens do DOPS para concretizar o plano fui visitar amigos no bairro da Pompéia, em São Paulo, e lá, entre outros, revi o Ailton (nao sei seu sobrenome) que era viciado em drogas e que estava planejado um assalto a um banco com mais duas pessoas.

Na época me pareceu uma boa idéia me associar ao grupo para descobrir se o assalto ao banco teria motivos políticos ou se era somente para a compra de drogas e outros bens.

Logo me enturmei com o pessoal e emprestei o carro roubado a eles. Dias depois quando passávamos pelo bairro da Citi Lapa o Ailton que no momento era o motorista perdeu o controle do carro em uma curva, vindo a capotar o veículo roubado.

No momento do acidente, com o automóvel rolando ladeira abaixo e todo aquele feeling de estar dentro de um lidifiquador, ninguém, inclusive eu, ouvimos um disparo, acidentalmente, saído de uma arma que estava em meu poder.

Por outro lado o Ailton, amortizado pelos efeitos da heroína, nem sequer soube que tinha sido atingido por um tiro no braço.
Um dia depois é que com fortes dores foi para um hospital dizendo que tinha machucado o braço em um acidente de carro.

No dia do acidente foi a última vez que vi Ailton, depois fiquei sabendo que o médico ao lhe tirar o casaco e a camisa, primeiro, viu seu braço deformado de tanta agulhadas em suas veias e logo acima um projétil de calibre 22 saindo de um músculo atingido pelo disparo acidental.

O médico plantonista, assustado, chamou imediatamente a polícia civil a qual levou Ailton para um interrogatório, concluindo mais tarde que no momento do acidente, de fato houve um disparo, e que a arma poderia ser a minha.

Dessa confusão toda não planejada nasceu uma situação ideal, conforme disse mais tarde o chefe dos investigadores do DOPS, Oswaldo de Oliveira, quando da minha prisão por outro investigador que não sabia da minha ligação e os planos com o SS do DOPS Paulista, criando assim uma ficha mais do que suja e qualificando-me para um auto-exílio no Uruguai, aonde viria conhecer alguns dos futuros governantes do Brasil.

Anos mais tarde fui absolvido do roubo do carro e condenado a revelia pelo disparo acidental. Na época não residia mais em São Paulo e o advogado, indicado pelo Dr. Francisco Nascimento, encarregado do meu processo, relaxou no seu trabalho assumindo que eu não mais retornaria ao Brasil, caindo assim o meu processo de disparo acidental no esquecimento.

Chegando ao Uruguai procurei o Primeiro Comunista, Marco, o Paraguaio, e lhe narrei meu envolvimento com alguns marginais, sobre a minha prisão e que estava sendo procurado pela polícia de São Paulo e sem opções tinha fugido para o Uruguai.
 
O Paraguaio me recebeu-me com muita alegria e esperança em me converter aos seus ideais políticos. Era eu o mais novo candidato a terrorista no Uruguai.

Marco, inicialmente, hospedou-me em sua casa. Foi muito discreto quanto a apresentar-me seus companheiros de luta política. Durante o tempo que lá fui hospedado conheci outras pessoas amigas de Marco, mas era difícil saber quem era quem no meio de argentinos, paraguaios, de muitos brasileiros que iam e vinham e até pessoas de outras nacionalidades que não pude detectar.
 
Mais tarde quando me mudei para um bordel na mesma rua onde residia o Marco, ele se sentiu mais à vontade e apresentou-me algumas pessoas dizendo serem elas ligadas a movimentos de esquerda e procuradas no Brasil pelos órgãos de segurança nacionais.
 
Entre outros me recordo e conheci pessoalmente Henrique Knap, Eliane Toscano, Paulo de Tarso Venceslau e o Desembargador Carlos F. Sá.  

Também através do Marco conheci o “Raul” um dos chefes dos TUPAMAROS, movimento guerrilheiro uruguaio, e mais dois de seus companheiros os quais nunca soube seus nomes falsos ou verdadeiros.

Não posso confirmar se foram os companheiros de Marco que assassinaram, em 1970, o agente do FBI lotado em Montevidéu, Dan Mitrione, ou se foram também os mesmos terroristas que seqüestraram o cônsul brasileiro, Aloísio Gomide, que mais tarde soube-se que houve pagamento em dinheiro para o resgate do diplomata.

Com o passar do tempo fui me ambientando em Montevidéu onde trabalhei em uma sapataria perto dos cais do porto, e à noite levava sapatos para costurar a mão no cortiço onde morava.

Depois de um tempo trabalhei em uma joalheria, polindo, fazendo jóias simples e limpando todos os dias a pocilga dos joalheiros que trabalhavam com carbureto em vez de um gás mais limpo como o acetileno ou outro qualquer.

Para quem nunca fumou um cigarro, quase morri devido a uma inflamação nos pulmões, tanto foi a quantidade de gás e resíduos de carbureto que respirei em um ambiente fechado e frio de Montevidéu.

Obviamente que não podia demonstrar o minguado dinheiro depositado em dólares mensalmente em Montevidéu pelo DOPS em minha conta corrente, com sobrenome diferente, no Banco Sudameris. Não era muito o salário pago regularmente, mas no fim de quase três anos deu para fazer uma boa economia e depois imigrar para os Estados Unidos onde vivi por quinze anos. Longe do DOPS, política, das guerrilhas, longe do Brasil.

Março de 2007 - Continua amanhã

Comentários  
#2 Fernandez 20-05-2014 09:32
Ola Draxyon.
Voce comentou sem ler a segunda parte da Cronica, depois nos falamos.

Fernandez
#1 Draxyon 18-05-2014 03:00
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Discordo!

O primeiro comunista foi o "Adversário"!
A palavra "adversário" em hebraico é: "satã".

O primeiro comunista vem lá do Jardim do Éden descrito no primeiro livro de moisés, denominado "Gênesis".

Senhores! O buraco é bem mais em baixo, e o abismo é bem mais profundo. Muito mais profundo do que pode imaginar a nossa vã filosofia.

Abraços.
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