A ministra Dilma Rousseff deu explicações vagas sobre o caso: "Não descartamos nenhuma hipótese"
O dossiê com gastos sigilosos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso está há mais de quinze dias sem pai nem mãe. Revelado por VEJA há duas semanas, o dossiê é uma compilação de despesas do ex-presidente, da ex-primeira-dama Ruth Cardoso e de alguns de seus principais ministros entre 1998 e 2002. O papelório foi produzido na Casa Civil da Presidência da República e usado para intimidar parlamentares que pretendiam investigar despesas do presidente Lula e de sua família na CPI dos Cartões. Desde que VEJA comprovou a existência do dossiê, o governo já apresentou inúmeras versões para o mesmo fato. Na semana passada, surgiu mais uma.

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O governo levantou a suspeita de que o dossiê teria sido produzido por um funcionário infiltrado pela oposição. O presidente Lula chegou a afirmar que as informações sigilosas foram "roubadas" e que a ministra Dilma Rousseff, a chefe da Casa Civil, é vítima de "chantagem política". Lula não disse quem roubou os dados nem explicou por que a ministra estaria sendo chantageada. Por que o hostil "ladrão" roubaria dados da era FHC e não da era Lula é apenas mais um dos enigmas que as explicações oficiais acabam criando em torno do caso. O maior dos enigmas continua de pé desde o primeiro dia: por que motivo todo o esforço oficial está em tentar encobrir a identidade de quem, dentro do Palácio do Planalto, mandou produzir o dossiê? Fatos são coisas teimosas. Eles não somem por decreto. 

 
 Foto da tela de computador da Casa Civil publicada pela Folha de S.Paulo: a imagem contradiz versões oficiais

Na semana passada, a Folha de S.Paulo publicou fotografias de telas de computadores instalados na Casa Civil da Presidência da República. As imagens foram usadas pelo jornal para sustentar que o dossiê não foi roubado por nenhum agente secreto. Ele existe nos discos rígidos dos computadores da Casa Civil da forma como veio a público e como VEJA divulgou há duas semanas. Em vez de armazenar dados universais, como seria o caso de um banco de dados administrativo, o dossiê concentra-se em gastos com miudezas, como produtos de higiene pessoal, e despesas com bebidas alcoólicas, comidas raras, restaurantes caros e hotéis de luxo, entre outros itens potencialmente desconcertantes quando pagos com dinheiro público. As fotografias mostram que o dossiê começou a ser produzido na Casa Civil no dia 11 de fevereiro passado, conforme relatado por VEJA em sua última edição, e revelam o horário exato em que o arquivo digital foi criado – 15h28. No total, o arquivo tem 532 lançamentos distribuídos em 27 páginas. Há pastas específicas nas quais estão armazenados gastos da ex-primeira-dama Ruth Cardoso, de três ex-ministros do governo tucano e até da ex-chef da cozinha do Palácio da Alvorada, Roberta Sudbrack.

Até a semana passada, as versões oficiais protegiam a secretária executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, a principal suspeita de ter comandado a operação que vasculhou as despesas sigilosas de Fernando Henrique, seus ministros e familiares. A ministra admitiu que Erenice coordenava a produção de um banco de dados sobre gastos dos governos atual e passado, mas negou que sua principal assessora tenha produzido o dossiê. As novas evidências de que o dossiê foi produzido e armazenado dentro da Casa Civil, em um sistema fora da malha de dados oficial, complicaram ainda mais o caso. Na sexta-feira passada, a ministra Dilma Rousseff convocou uma entrevista coletiva para passar a limpo a questão. Sempre assertiva e clara em suas explicações sobre as ações do governo, a ministra esteve irreconhecível na entrevista. Dilma disse que "as pastas de computador" – ela não aceita a expressão dossiê para designar a compilação de dados – publicadas na imprensa podem ser "falsas ou verdadeiras", como se houvesse um terceiro estado para esse tipo de coisa. "Não descartamos nenhuma hipótese", afirmou ela. Sobre o responsável pelo dossiê, admitiu que pode ser obra de algum "agente secreto com crachá", mas não forneceu detalhes sobre essa suspeita.

A verdade é que o governo, até agora, se esforçou apenas para descobrir a identidade de quem repassou as informações do dossiê à imprensa, e capitula na hora de tentar apontar quem o produziu. Ainda sob o pretexto de encontrar o "vazador", seria natural que a Polícia Federal fosse chamada para investigar o caso. Peritos criminais poderiam acessar os computadores do Palácio do Planalto e colher pistas sobre o autor do dossiê – ou "vazador" como prefere o Planalto. Em vez de acionar a PF, a Casa Civil optou por manter a investigação sob seu controle, instaurando apenas uma sindicância. Um dos servidores que acompanharam de perto a produção do dossiê, ouvido por VEJA, diz que os funcionários envolvidos, oito no total, ameaçam detalhar a cadeia de comando da produção do dossiê caso alguém, que apenas cumpriu ordens, seja responsabilizado pelo escândalo. Pode estar aí a explicação para a cortina de fumaça que se tenta criar.

 
 Erenice Guerra, a número 2 da Casa Civil, é suspeita de ter ordenado a produção

 

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