Por ELIANE CANTANHÊDE
BRASÍLIA - Só não vê quem não quer: a tese da re-reeleição de Lula, reprimida em público, corre solta em corações e mentes do governo, do PT e da base aliada. O próprio vice-presidente, José Alencar, disse à rádio Bandeirantes: "O Lula deseja fazer o seu sucessor. Mas eu digo para você que, se perguntarem aos brasileiros, o que os brasileiros desejam é que o Lula fique mais tempo no poder".

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Em politiquês, leia-se: segundo Alencar, Lula não quer e não tem nada a ver com isso, mas os eleitores estão doidos para empurrá-lo rampa acima de novo. O vice, nada menos que o vice, namora publicamente com a possibilidade do terceiro mandato do presidente.
 

Lula não pode admitir uma barbaridade dessas a dois anos das eleições presidenciais, mas a idéia paira sobre o Brasil, empurrada pelas circunstâncias políticas internas e pelos ventos sul-americanos.

 

Na política interna: José Dirceu caiu, Antonio Palocci despencou, Dilma Rousseff nem decolou e já sacoleja sob o impacto do dossiê do uiscão. O PT não tinha quadros para repor Dirceu e Palocci, nem tem um Plano B para o caso de Dilma não sair do chão. E convém desconfiar do interesse petista em apoiar um corpo estranho, apesar de aliado. Ciro Gomes (PSB), por exemplo, que vai bem nas pesquisas.

 

Enquanto isso, Lula navega em recordes de popularidade, diz o que bem entende, onde bem entende, e avisa que a oposição "pode ir tirando o cavalinho da chuva", porque a eleição de 2010 está no papo. OK. Mas no papo de quem?

Quanto ao continente: Chávez perdeu o referendo na Venezuela, mas deixou um rastro continuísta.

Por ora, Néstor já estendeu o mandato Kirchner, elegendo Cristina na Argentina, e Álvaro Uribe está assanhado na Colômbia. Porque, como diria Alencar, o povo quer.

No Brasil, o "povo" pode vir a querer, e a política, a viabilizar. Lula vai na onda e justifica: "Eu sou a "metamorfose ambulante", lembram?".

 

Petista volta a prometer PEC do 3º mandato

O deputado Devanir Ribeiro (PT-SP) prometeu ontem que apresenta até a semana que vem uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que, se aprovada, permitirá o terceiro mandato do presidente Lula.

O parlamentar, que ganhou apoiadores no Congresso, acredita que, com a declaração do vice-presidente José Alencar -que disse que o povo deseja Lula mais tempo no poder-, a discussão ganhará espaço.

O petista rejeita o rótulo de "golpista", como sugeriu a oposição, e afirmou que a sua idéia é apenas dar uma nova leitura à Constituição com o apoio do povo. "O que o Congresso aprova não é golpe e estou seguro que o partido terá que discutir a minha tese. O partido não pode ficar de costas para o povo e estou convicto de que o povo aceitará essa discussão, de que o momento é oportuno", disse.

Miro Teixeira (PDT-RJ) declarou ontem seu apoio abertamente a Devanir e classificou como "absurda" a posição de alguns de tentar "calar" o petista. Miro Teixeira afirmou que já passou da hora de o Legislativo começar uma discussão sobre reeleição e tempo do mandato.

"Temos que lembrar que, com medo de o Lula ser eleito, mudaram o mandato presidencial de cinco para quatro anos e que no meio do governo tucano permitiram a reeleição. Depois querem falar que o Devanir que é casuísta?", questionou Miro. "Acho que o debate é instigante e não tem relação com dar o terceiro mandato para o Lula -quem dá mais um mandato é o povo. Vamos discutir, mas quem vai decidir é o povo."

Devanir ainda não finalizou a sua PEC. A idéia, segundo ele, é recuperar o texto da Constituição de 1988, aumentando o mandato do presidente para cinco anos, sem reeleição. O deputado petista também pretende colocar uma emenda em sua proposta que permita que qualquer um possa se eleger com as novas regras, inclusive o próprio Lula. A idéia de um plebiscito, convocado pelo próprio presidente, também não está descartada.

O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), descartou a hipótese de a proposta ser votada na Câmara neste ano. Para ele, o assunto não tem espaço na Casa e qualquer tentativa de um terceiro mandato não prosperaria entre os deputados. "Avalio que a idéia não tem espaço, não vejo clima para prosperar e eu pessoalmente também sou contra a idéia [do terceiro mandato]", disse.

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