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Categoria: Forças Armadas
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(Revista do Clube Militar – outubro de 2010 – Extrato do artigo)
General da Reserva Luiz Eduardo Rocha PaivaNa Guerra da Tríplice Aliança, aflorou em toda plenitude o gênio guerreiro de Caxias, começando pela reorganização do teatro de operações, nos aspectos de gestão e logística estratégicas, e a do Exército no tocante a reaparelhamento, adestramento, logística operacional, saneamento e disciplina. Pôde, então, elaborar, planejar e conduzir as operações decisivas, que levaram à conquista de Humaitá (julho de 1868), abrindo o acesso para Assunção pelo Rio Paraguai; à manobra do Chaco (ou do Piquiciri), criando as condições para desbordar e destruir do Exército Paraguaio na “Dezembrada” (1868); e à conquista de Assunção em março de 1869.
O estudo da manobra estratégica de Caxias permite identificar o condutor de tropas que empregava com maestria consagrados princípios de guerra, particularmente: objetivo, ofensiva, manobra, massa, surpresa e unidade de comando. Soube, sem precipitar-se, como lhe cobravam alguns críticos, esperar o momento em que as forças aliadas estivessem preparadas para retomar a ofensiva, fruto de seu trabalho de reorganização. Buscou e conseguiu a destruição das forças inimigas, faseando as operações segundo objetivos sucessivos criteriosamente selecionados, que se mostraram decisivos. Manteve pressão constante, impedindo a reorganização do inimigo, aceitou, corajosamente, o risco calculado de colocar-se em posição vantajosa à retaguarda do Exército Guarani, e comandou pessoalmente as ações principais. Nessa fase da campanha, deve ser ressaltado o seu êxito ao lograr a convergência de esforços entre o Exército Aliado e a Marinha Imperial, antecipando em mais de um século o que hoje chamamos de (e ainda tentamos aprender) “operações conjuntas”.


Mas para ser reconhecido como um dos maiores vultos de nossa História, se não o maior, seria necessário mais do que competência militar e aptidão para o jogo político-diplomático. Caxias também se impunha, naturalmente, pela autoridade moral, mercê de integridade, honestidade de propósitos, patriotismo, franqueza, disciplina, lealdade e coragem moral e física. Portanto, é o exemplo de líder em todos os escalões de liderança — direta, organizacional e estratégica — e seria um dos “grandes capitães” da história militar mundial, se tivesse vivido na Europa, segundo a opinião de muitos estudiosos da arte da guerra. Caxias honrou o compromisso, tendo a ventura de servir à Nação como subordinado a um Estado que zelava pela soberania da Pátria, unidade nacional e integridade territorial, conforme preconizava a Constituição do Império.

O sociólogo Gilberto Freyre destacou a importância de Caxias na construção da grandeza da Nação brasileira, assim se expressando: "Caxiismo não é conjunto de virtudes apenas militares, mas de virtudes cívicas, comuns a militares e civis. Os "caxias" devem ser tanto paisanos como militares. O caxiismo deveria ser aprendido tanto nas escolas civis quanto nas militares. É o Brasil inteiro que precisa dele...”. Caxias — uma referência para seus irmãos brasileiros, um símbolo de grandeza moral, um filho de quem o Brasil tem verdadeiros motivos para se orgulhar.

O LEGADO DE CAXIAS (Final)
General da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva

O legado de Caxias, e dos heróis que fizeram a história do Exército, é o compromisso de lealdade à Pátria, acima de tudo. O Exército é um braço armado do Estado, sendo este o delegado instituído pela Nação para servi-la. Assim, o dever do Estado é garantir desenvolvimento, bem-estar e segurança à Nação, tendo o dever de pautar as instituições que o compõem, entre elas o Exército, pelo disposto na Constituição.

O contexto nacional entre 1994 e 2016 foi diferente do vivido por Caxias no Brasil Imperial, quando a liderança do país, encabeçada por D. Pedro II, também era compromissada com a Nação. Ao contrário, nas duas décadas de governos socialistas, os interesses nacionais subordinaram-se a políticas de cunho ideológico e internacionalistas, com foco na permanência dos socialistas no governo para a futura conquista do poder. Tentaram debilitar o Estado democrático de direito, corromper e depravar a sociedade e neutralizar as Forças Armadas, etapas da implantação do regime socialista. Na política externa, arriscaram a soberania, a integridade territorial e a unidade nacional, cedendo a pressões internacionais e comprometendo a coesão do país, com políticas desastrosas na Amazônia, nas questões indígena e quilombola, bem como desprezando o fortalecimento do poder militar para a defesa do Brasil.

Nesse contexto nefasto, Caxias enfrentaria um conflito de consciência, traduzido no dilema: “lealdade ou disciplina?”. A propósito, transcrevo trecho de artigo que publiquei no Estadão de 07/05/2008, onde opinei que: “Trata-se de um aparente dilema, pois a lealdade à Nação é, em síntese, manifestação de disciplina em seu grau mais elevado, considerando a missão constitucional das Forças Armadas e o juramento do militar à Bandeira Nacional. Esta lealdade se mostra, inicialmente, pela coragem de alertar a sociedade, claramente, sobre a ameaça que se está concretizando, uma vez esgotados os meios de sensibilizar a liderança nacional. Cabe à sociedade exercer, por meio de seus representantes, o poder que emana do povo em uma democracia. Que demonstre maturidade, dignidade e amor à Pátria, pois é hora de evidenciar que não precisa ser tutelada e se interessa pelo futuro soberano do País num mundo onde o jogo do poder é uma realidade permanente. As Forças Armadas, por sua vez, devem continuar alertando a Nação, cada vez com mais ênfase, para não serem responsabilizadas por se omitirem em momento tão delicado como o que vive o Brasil”.


É que o chefe militar, como qualquer cidadão, deve ter limites auto impostos, inclusive no tocante a normas disciplinares e a outras. Sua obrigação moral é tomar decisões arriscadas para si, assumindo as responsabilidades correlatas, quando colocado diante de situações extremas que ameacem o futuro da Pátria - soberania, patrimônio e integridade - ou possam ferir gravemente o princípio da justiça e a paz interna.

Em 2008, o então Comandante Militar da Amazônia (Cmt CMA), General Heleno, havia alertado à Nação, em uma palestra, dizendo que a “política indígena do governo era caótica”. Declaração corajosa e patriótica, mas arriscada para um chefe militar da ativa. A reação de alguns setores foi exigir do governo alguma medida disciplinar contra o general. Por isso eu, já na reserva, decidi escrever o artigo e tive a felicidade de vê-lo publicado no Estadão em destaque. Achei justo, pois a atitude do Cmt CMA foi por lealdade à Pátria, fiel ao legado de tantos chefes militares de nossa História como Osorio, Castello Branco, Médici e, do primeiro entre iguais, o Duque de Caxias.