UM ESTADO AGONIZANDO
  Marco Antonio dos Santos
       Coronel do EB especialista em Inteligência
Poucas vezes e sem precedentes na magnitude da atual, o Rio de Janeiro está em mais uma crise de insegurança pública de graves consequências.
O pior, agravando a situação, e que concorrem com ela, crises de origem política, econômico-financeira, crise no sistema de saúde, de educação e ética-moral na administração do Estado.
Particularmente a capital, São Sebastião Rio de Janeiro, está submetida à média de 16 grandes conflitos armados entre bandidos ligados ao narcovarejo e policiais militares e civis por dia. A intensidade dos confrontos começa a fazer inveja à Síria
.Pelo menos, 21 roubos de cargas de porte também acontecem diariamente, podendo levar a cidade ao desabastecimento, porque empresários, motoristas/ajudantes e seguradoras começam a pensar em parar.
Junte–se ao quadro a queda sensível no efetivo das policias cariocas que pode ter chegado a 60% do número ideal, a redução em 50% nas viaturas da PM, a morte de 88 policiais somente neste ano e os atrasos nos salários que remontam ao 13º de 2016, ainda não pago, e vencimentos mensais retidos desde maio.
E, ressalte–se, as polícias do Estado do Rio de Janeiro, apesar dos casos de corrupção, fato comum no Brasil de hoje em qualquer instituição pública, nunca se furtou em enfrentar as organizações criminosas e até mesmo conseguindo manter certo equilíbrio e algum nível de segurança nos locais de maior possiblidade de impacto na sociedade causado pela ação de bandidos, como vias nas expressas e grandes avenidas.
Agora, tudo está por um fio para desembocar no caos, o que pode já ser verdade.
E o governo do Estado, faz mais de um ano vivendo à míngua de acertos político- financeiros com a União, não têm condições essenciais em qualquer fator que se possa conceber, para restabelecer o mínimo necessário de ordem e segurança públicas.
O problema fluminense com a segurança pública é antigo, com mais de 3 ou 4 décadas pelo menos, e tem uma variedade de causas de diversas naturezas, avaliando eu, como principais o envolvimento longevo de políticos do Estado com o jogo do bicho, inicialmente, depois, acrescendo, com o narcotráfico, e da tolerância excessiva da sociedade com o uso de drogas nas praias, nas baladas e nos desfiles carnavalescos. Claro, tudo isso somado à corrupção que parece endêmica no Estado do Rio de Janeiro, como de resto, no Brasil todo.
Agora, no entanto, diante dos acontecimentos das últimas semanas, o equilíbrio do terror foi rompido e a população desarmada está à mercê unicamente de dois “partidos”: policiais mal equipados e fragilizados até pela atuação da mídia sobre as corporações versus bandidos organizados em facções, com meios disponíveis a rodo, de fácil obtenção, inclusive armas e munições pesadas.
Os resultados são vistos diariamente nos noticiários: “balas perdidas”, pessoas acuadas embaixo de veículos e atrás de falsas proteções de paredes e muretas, ônibus incendiados, comunidades sob administração do tráfico, comércio fechado por ordem de marginais e a terrível sensação de medo e desamparo.
De há muito que deveria ter sido decretada intervenção federal no Estado de Rio, conforme prevê a Constituição Federal de 1988, mormente após o descalabro do governo  de Sérgio Cabral e assunção do governo Pezão.
No entanto, com a experiência em vários anos no cenário carioca e avaliando a completa inação e fragilidade do Governo Temer, visualizo esta hipótese como de baixíssima possiblidade de ocorrência. Governos muito mais bem avaliados e com melhores condições de governabilidade, como o de Itamar Franco em 1994, evitaram esta medida cabível em situação semelhante na época.
Muito provavelmente, o Plano Nacional de Segurança Pública, recentemente alardeado e não implementado, sofrerá uma recauchutagem de emergência, os recursos antes destinados ao país todo serão alocados ao Rio, serão enviadas as decantadas “tropas federais”, leia-se as Forças Armadas, especialmente o Exército, como de praxe, e algumas centenas de efetivos da Força Nacional e Polícia Rodoviária Federal. Mais do mesmo de sempre que não resolve o problema central.
Infelizmente, como já visto, jovens soldados e policiais serão usados como “carne para urubu”, sem  resultados efetivos. Mas alguém dirá “é para isso que são pagos”.
Em fim, o elefante sairá  da sala, “quem nada tinha e perdeu tudo, retomará a sensação de que tudo melhorou” e daqui a 2 ou 3 anos, a mesma  “déjá vu”.
 

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