Honestidade intelectual
‘Sem rumo, caímos em falsas narrativas, no populismo e na corrupção. Ainda não fizemos uma autocrítica nem pedimos desculpas à História e ao povo’
Paulo Guedes - O Globo - 10/07/2017 
Adegeneração política de nossa democracia emergente e o medíocre desempenho econômico em mais de três décadas de governos socialdemocratas exigem explicações. É o que apresenta o senador Cristovam Buarque em artigo nesta página de O GLOBO deste sábado.
Ele atribui o fracasso à perda de vigor transformador da social-democracia, por sua falta de sintonia com o “espírito do tempo” atual. “Enquanto a realidade se transformava, continuamos com as ideias do passado”, explica com rara honestidade intelectual. Acrescenta que os governos recentes devem também explicar “a persistência da pobreza e da desigualdade”, entre outros males.
Vislumbrando o endividamento público em bola de neve, o consumismo à base de crédito e o conflito entre gerações inerente à quebra da Previdência Social, Cristovam registra que a distribuição dos recursos entre o presente e o futuro é mais crítica do que a disputa entre capitalistas e trabalhadores.
 
 
“Preferimos defender direitos de servidores estatais à qualidade dos serviços públicos. Ignoramos que estatal não é sinônimo de público. Caímos no oportunismo eleitoral. Faltou a compreensão de que a eficiência e a justiça não virão da ocupação do Estado para subordinar a economia ao controle dos partidos, mas de uma educação de qualidade para todos. Caímos em falsas narrativas e acreditamos nas próprias mentiras. Sem rumo, caímos no populismo e na corrupção. Ainda não fizemos uma autocrítica nem pedimos desculpas à História e ao povo”.
 
São reflexões corajosas e pertinentes para o surgimento de uma Nova Política e das reformas que serão exigidas. Pois nossos governos seguem fabricando desigualdades, em vez de atenuá-las.
 
Sabemos desde as investigações da Lava-Jato que a Justiça nunca foi igual para todos.
 
As pensões, benefícios, salários e planos de saúde de políticos e servidores foram sempre abusivos, comparados aos da população.
 
Os juros são subsidiados para grandes empresas e extorsivos para pequenas e médias.
 
Há isenções fiscais para instituições de saúde e de ensino dedicadas a altas faixas de renda, uma flagrante injustiça, um apoio à “pilantropia”, à acumulação imobiliária e à fabricação de futuras e acentuadas desigualdades de renda.
 
Celebremos o espírito público da autocrítica de Cristovam Buarque.

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