Por Aluísio Madruga de Moura e Souza

            Voltemos à ações dos terroristas de 1964, detalhando alguns justiçamentos que praticaram. Aliás, justiçamentos  para eles. No nosso entendimento  assassinatos puros e simples como foi o do  industrial Henning Albert Boilesen. E que fique claro que além de componentes dos órgãos de segurança e civis como Boilesen, também militantes de esquerda sofreram justiçamentos perpetrados por componentes da própria organização quando ficavam sob  suspeita.

O assassinato de Henning Albert Boilesen: buscando a criação da Operação Bandeirante(OBAN) em São Paulo, o então Comandante do II Exército , General Canavarro, reuniu-se com o Governador do Estado e com várias autoridades federais,  estaduais, municipais e industriais paulistas, solicitando apoio para criação com urgência de um órgão que tivesse condições de fazer frente ao terrorismo crescente que estava em curso no Brasil e, em particular,  em São Paulo. Assim, vários industriais se cotizaram para atender ao pedido daquela autoridade militar.

 

Como resposta à criação da OBAN e para intimidar aqueles industriais, por orientação de Carlos Lamarca, os terroristas selecionaram nomes para que um deles fosse “justiçado”. Foram então selecionados Henning A. Boilesen, Peri Igel e Sebastião Camargo, da firma Camargo Correia, sendo finalmente escolhido para morrer o presidente da Ultragás, um dinamarquês naturalizado brasileiro. Eis que a partir da segunda quinzena de janeiro de 1971, tiveram início os levantamentos relativos aos hábitos do industrial, dos quais participaram os terroristas Devanir José de Carvalho, Dimas Antônio Casemiro, Gilberto Faria Lima e José Dan  de Carvalho, pelo Movimento Revolucionário Tiradentes(MRT); Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz pela  ALN; Gregório Mendonça e Laerte Dorneles Méliga, este, que não muito distante foi chefe de gabinete do então governador do Rio Grande  Sul, Sr. Olívio Dutra, ambos pela VPR. Eis que no dia 15 de abril de 1971, um comando revolucionário integrado pelos terroristas Yuri Xavier Pereira, Joaquim Alencar Seixas, José Milton Barbosa, Dimas Antônio Casimiro  e Antônio Sérgio Matos, covardemente assassinou Boilesen. Quando o carro do industrial entrou na Alameda Casa Branca, dois carros dos terroristas emparelharam com o dele. Pela esquerda, Yuri, colocando um fuzil para fora da janela, disparou um tiro que foi raspar a cabeça de Boilesen. Então este saiu do automóvel que dirigia e tentou correr em direção contrária aos carros, mas foi inútil. José Milton descarregou sua metralhadora nas costas do industrial e Yuri desfechou-lhe mais três tiros de fuzil. Cambaleando, Boilesen  arrastou-se por mais alguns metros e foi cair na sarjeta, junto a um Volkswagen. Aproximando-se, Yuri disparou mais um tiro que lhe arrancou a maior parte da face esquerda. Joaquim Alencar Seixas e Gilberto Faria Lima jogaram os panfletos por cima do cadáver. Posteriormente, no relatório escrito por Yuri e apreendido pela polícia, aparecem as frases: “ durante a fuga trocávamos olhares de contentamento e satisfação. Mais uma vitória da revolução.”

Na ação vários carros e casas foram atingidos pelos projéteis. Caídas, duas senhoras, uma atingida no ombro e outra ferida na perna. Sobre o corpo de Boilesen, mutilado com dezenove tiros, os panfletos da ALN e do MRT, dirigidos ao “povo brasileiro” traziam a ameaça: “como ele existem muitos outros e sabemos quem são. Todos terão o mesmo fim, não importa quanto tempo demore – o que importa é que eles sentirão o peso da Justiça Revolucionária. Olho por olho, dente por dente”.

O assassinato comoveu a opinião pública e teve ampla repercussão no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa de São Paulo. A respeito desse  repulsivo ato terrorista é importante destacar o que publicou a Folha de São Paulo de 16 de abril  de 1971: “Meios políticos e empresariais condenaram veementemente o brutal assassinato. A Assembleia Legislativa suspendeu  seus trabalhos para render um preito de homenagem à memória do industrial assassinado por terroristas. Ao instalar os trabalhos  da sessão, o presidente da Casa, deputado Jacob Pedro Carolo, disse que “ Boilesen foi vítima de terroristas covardes”.

Finalmente para justificar esse ato criminoso e covarde de tamanha repercussão, os terroristas e seus seguidores passaram a difundir abomináveis e sórdidas mentiras. Entre elas, afirmavam que Boilesen era um agente da Cia, que frequentava a OBAN(que depois passou a chamar-se Destacamento de Operações do II Exército – DOI/II EX) e que nessas visitas assistia e participava de interrogatórios dos presos, ocasiões nas quais, pessoalmente, testava uma máquina de aplicar choques elétricos que ele mesmo inventara. Quanta sordidez.....

Enfatizamos que está redondamente equivocado aquele que imaginava que os terroristas e guerrilheiros se limitaram a assassinar apenas os que a eles se opunham. Muitos de seus companheiros de viagem foram por eles justiçados,  depois de julgados e condenados pelo “crime de não terem cometido nenhum crime”. É isto mesmo! Na maioria das vezes a acusação era totalmente empírica, a saber: “fraqueza ideológica” o que era considerado como crime capital, um perigo em potencial para seus pares. Então todo aquele que abandonasse ou pensasse  em voz alta em abandonar a organização às quais pertenciam ou tiveram a audácia de pensarem com suas próprias cabeças eram considerados “perigosos” e, na maioria das vezes, pagaram com a própria vida, porque poderiam mais à frente colaborar com os burgueses.    

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